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18 julho, 2018

Ninna, a bailarina. (da série: Os Amores de Nando)




Ninna, a bailarina, abriu a porta da minha vida, sem aviso prévio, chegando com delicadeza no falar e cinesia na ponta dos pés. Em rodopios, apresentou-me a subtileza de uma vida cheia de ritmos esperançosos. Foi então que estendi as minhas mãos e convidei-a para uma visita guiada ao meu coração, era pequeno mas tinha espaço para nós os dois e um abraço quente nos dias de cacimbo.

Sentamo-nos no jardim dos encontros e ao trocarmos palavras de conhecimento, sabíamos, naquele mesmo momento, que o amor tinha acabado de beijar as nossas mãos. Então sorrimos, assim, de mão beijada. Tudo era magia, mas nada desaparecia. Aproveitávamos a vida com adrenalina, porque sabíamos que onde havia intensidade a efemeridade também se fazia presente. 
Havia uma, aliás, havia várias peculiaridades sobre a Ninna, a bailarina. Ela não chorava com os olhos, nunca! Em vez disso, chorava por dentro. Ela acreditava que o exterior era apenas uma capa e que as verdadeiras batalhas são travadas no nosso íntimo. Ninna, recebia de mim todas as compressas e atitudes. No início da nossa relação, ela gostava que eu tocasse música clássica e a apreciasse dançar, e eu adorava deixar-me levar pela suavidade dos seus movimentos.
Por ela, e para ela, dei o melhor de mim. 

O nosso primeiro brinde, em Janeiro de 2018 foi: '' À magia dos começos ''

Porque à esta magia atribuíamos o frio na barriga, as borboletas no estômago, o congelar delicado dos nossos corpos nos segundos que antecediam o toque. Naqueles instantes nunca paramos de sorrir, procurávamos sempre razões para encontrar a próxima maravilha do mundo. O ângulo do sorriso  dela ampliava-se cada vez mais, Ninna só sabia sorrir. Sorria ao contemplar o vazio e ao preencher os silêncios, sorria até mesmo no momento em que me confessou que já não sabia dançar-

''Mas como assim?'' Ela era bailarina há mais de 10 anos, como era possível? 
''Mas eu já não sei, Nando. Estou com bloqueios. Desaprendi.'' 
Aproximei-me e abracei-a antes de a tocar. Despimo-nos, e aí, no meu quarto, nus, deixei-a repousar na cama e caminhei até o meu computador. Coloquei Tchaikovsky a tocar.
''Swan Lake!'' Ninna reconheceu a música. 
'' Dança, Ninna.'' Pedi.
Levantou da cama, com os seios empinados tão doces e firmes. Os pés para fora, na primeira posição. Tentou fazer um movimento, mas falhou. Com os olhos arregalados, encorajei-a a continuar. Ninna deu um salto, uma pirueta, um demi-plié, depois um grand-plié e logo a seguir uma queda. Caiu no chão frio do meu quarto escuro. Baixou a cabeça e chorou a espera do consolo de Fevereiro.

Fevereiro chegou, e trouxe consigo algo que Ninna nunca conheceu. Ela já não sorrias tanto, estavas desiludida consigo mesma e culpava os seus sapatos. O cabelo já não queria estar preso, o corpo já não reconhecia os seus trajes.

Já era Março, quando Ninna bateu a porta da minha casa. Veio animada, motivada, jurava que aquele era o dia em que reaprenderia a dançar. Pediu-me para colocar a mesma música que da última vez, obedeci. Ela tentou, eu juro que ela tentou, mas falhou novamente. Foi então que ela chorou, sem consolo e disse, pela primeira vez, que sabia a causa do súbito esquecimento. Era eu. Era eu o causador do fim da sua arte. Ninna confessou que a felicidade que sentia ao meu lado fazia com que perdesse a inspiração, ela não conseguia ser criativa a sorrir por dentro e por fora. O interior era reservado para chorar, sofrer e criar.

Naquele momento percebi que o melhor seria terminar o nosso romance. Pedi para que ela nunca mais me procurasse, pois eu estava disposto a abrir mão dela se isso significasse o renascimento da sua habilidade de dançar.

Assim foi durante o resto do ano. Depois de algum tempo, ouvi dizer que Ninna tinha participado do casting de uma das melhores escolas de dança do país e tinha passado. Recuperou a sua fluidez e fez da dança a sua vida, outra vez.  Ouvi outras coisas sobre ela, os prémios que conquistou e as aparições no exterior.
Não podia evitar sorrir e agradecer ao universo por ter nos ensinado a deixar ir, por nos ter ajudado a perceber que nem sempre quem amamos é o melhor para nós. 
Não podia evitar pensar na Ninna, bailarina. Tão feliz na sua infelicidade.
Nina, a bailarina... Sempre precisou da falta de amor para sentir, criar e dançar.

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21 abril, 2015

A vida é Bárbara


 Lembro-me perfeitamente do dia 11 de Setembro, não pelo atentado às Torres Gêmeas nos Estados Unidos mas sim pela animação dos rapazes do meu prédio. Bela e Bárbara eram as novas vizinhas, irmãs gêmeas e muito bonitas, baixinhas, morenas, usavam o cabelo cacheado até aos ombros. Eu não vi nada tão especial em nenhuma das duas e nem tentei aproximar-me, embora elas morassem no mesmo andar que eu.

Bela era muito extrovertida, rapidamente tornou-se amiga de metade da vizinhança, ela sempre sorria e gostava de usar vestidos floridos.
Bárbara era estranha, introvertida, estava sempre com os olhos cansados e lábios secos, não ligava para a aparência e nem para a opinião alheia.
Todo mundo gostava muito da Bela e ela fazia questão de agradar as pessoas, com o tempo até eu comecei a falar com ela, descobri que tínhamos muita coisa em comum, ela também era apaixonada por informática, eu via vida nos olhos dela, mal sabia que a morte estava perto.

Passaram-se 10 meses, as gêmeas saíram animadas para uma ida a praia e ao entardecer eu só conseguia ouvir choros no apartamento ao lado, gritos e passos apressados nas escadas. Não demorou muito para que a notícia de espalhasse: Bela tinha morrido afogada. E o prédio inteiro chorava por perder a menina que oferecia sorrisos.

Eu e os meus pais fomos prestar apoio a família, dei as condolências aos pais e disponibilizei-me para qualquer eventualidade, depois fui abraçar a Bárbara que chorava inconsolavelmente. Nunca tínhamos trocado uma palavra até o dia em que ela foi para a minha casa, e disse que precisava desabafar. 
― Nando, eu matei a Bela. Fui eu que incentivei-lhe e ir para o mar, mesmo sabendo que ela não sabia nadar. A culpa é minha.― Confessou enquanto chorava e abraçou-me.
Contou-me que os pais estavam contra ela e já não lhe tratavam da mesma maneira, diziam que ela era a culpada pela morte da irmã. Bárbara sentia-se muito só e precisava de mim. O ambiente em casa dela tinha se tornado insuportável, os pais discutiam cada vez mais e descontavam a fúria nela. Bárbara tinha se tornado a única filha, saiu da solidão acompanhada para a tristeza solitária.
Ela passava a maior parte do tempo comigo lá em casa ou na varanda, também saíamos algumas vezes. A minha mãe gostava da nossa relação e achava estranho quando não estivéssemos juntos.
A minha mãe chamava a Bárbara de ''amor'' porque os dois eram difíceis de entender.

Bárbara foi a minha primeira namorada, o meu primeiro amor correspondido. Ela as vezes parecia ter problemas mentais, tinha uma obsessão pela morte e já tentou o suicídio inúmeras vezes, fazia cortes na própria pele com as facas de cozinha, lâmina ou canivete.

Ela gostava de fugir de madrugada para ir dormir comigo, ficávamos deitados na cama de barriga para cima e ela introduzia diálogos impensáveis.
― Qual é o teu sonho, Nando?
― Ser um homem bem sucedido e ter uma família feliz. E o teu?
― O meu sonho fugir.
― Fugir de quê?
― De mim.

Uma vez pesquisamos o significado do nome dela na internet e descobrimos que Bárbara significa estrangeira, e é isso mesmo que ela era, um ponto negro no meio de um pano branco. Bárbara não sorria com os lábios, sorria com a alma e eu podia senti-la, os olhos negros quase sempre cansados reflectiam o amor que eu sentia por ela e Bárbara jurava que me amava, mesmo sem amar a ela mesma.

Uma vez, estávamos na varanda a assistir o nascer da lua, ela apoiava a cabeça no meu ombro.
― A vida é bela, meu amor.― Eu disse baixinho.
― Não, Nando. Bela é a morte. A vida sou eu.'' Ela corrigiu com a voz suave.


Eu fui o primeiro homem da vida dela e ela a primeira mulher da minha, experimentamos ao mesmo tempo o primeiro cigarro e o primeiro orgasmo. Aquela foi a melhor noite das nossas vidas, a única vez que vi um sorriso não só na alma mas no rosto dela. Dormimos abraçados, aquecidos pelo prazer e pelo fumo, na minha cama de solteiro, com a janela fechada, para não sermos alcançados pelos problemas do mundo.

Na manhã seguinte, a minha mãe acordou-me sobressaltada, olhei para o outro lado da cama e a Bárbara já não estava. A janela estava aberta e lá de baixo ouvia gritos e choros, os passos apressados na escada me eram familiares. Na mesa de cabeceira encontrei um bilhete:

'' Ao teu lado vivi os melhores dias de sempre, a noite foi incrível mas precisei sair sem te acordar, vou para a minha casa realizar o meu sonho, vou fugir de mim mas espero continuar viva ao teu lado. Amo-te hoje e sempre.
P.s: A morte é Bela, eu sou a vida.''

Eu não podia acreditar naquilo. Recusei-me a olhar pela janela para ver coisas duras para os olhos e para o coração. Ouvi o barulho da ambulância e decidi confirmar as minhas suspeitas. Era verdade, a Bárbara estava lá em baixo, feita aos pedaços. A minha mãe chorou e abraçou-me.

―  Fernando, o amor acabou. ―  Disse ela entre um soluço e outro.
―  Sim. Desfez-se, partiu-se, foi-se. O amor morreu, mamã. Morreu.''

Os dias passaram, eu recuperei-me e continuei a olhar para frente. Lembro-me sempre da nossa última noite, a melhor das nossas vidas, quando ela sorriu pela primeira vez, quando ela entregou-se pela primeira vez e eu me senti amado. Lembro-me daqueles olhos calmos, sempre escuros e sossegados, do rosto pálido e lábios rosados. E sempre que desanimo ouço aquela voz suave sussurrar-me no meu ouvido ''A morte é bela, a vida é Bárbara.''

Ah, que barbaridade!
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11 junho, 2014

Alguns anos depois... Nando? O que é feito de ti?


O amor pode ter várias definições, tudo depende do definidor e da sua experiência de vida. Para os pessimistas o amor é um desastre, a pior das catástrofes, para os românticos o amor é a força que move o mundo, e já para pessoas como eu o amor é...Bem...O amor é uma coisa um pouco coiso... Bem... Pessoas como eu não sabem o que é o amor, tudo isso é muito confuso para mim porque muitas vezes pensei que o amor tivesse cruzado o meu caminho mas quando encostei para abraçá-lo tropecei e tive quedas graves que feriram até o meu coração. Deixei de procurar, porque dizem que o amor encontra quem está despreocupado, desisti da ideia de tentar encontrar uma alma gémea ou apaixonar-me a primeira vista por alguém.

Desde a minha adolescência que me apaixono com facilidade, o meu primeiro amor foi a Clarisse com dois ''s'', uma moça alta e magra que gostava de tirar fotos semi-nua para as redes sociais. Vivi algumas aventuras com a Maria Joana, ela tinha problemas com a nicotina e fazia amor com a fantasia. Depois disso veio a Camille, uma hipster francesa. O golpe mais profundo que o amor me deu foi a Bárbara, a primeira mulher da minha vida, que me abandonou para buscar a liberdade que só pode ser encontrada com a morte. Tive também a Beatriz que sonhava em ser actriz e agora brilha em HollyWood.

Hoje, tenho 25 anos e algumas marcas de amores errados. Continuo a ser um expert em tratamento da informação por meios automáticos e electrónicos e tenho a minha própria empresa, tenho carros e telemóveis da última geração, tenho uma casa enorme ocupada pelo vazio da vida que levo. Tenho uma carreira brilhante mas não tenho ninguém para abraçar nas noites frias e comemorar as minhas vitórias. 
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08 janeiro, 2014

Be-atriz. Be-a-star.

Beatriz queria ser uma estrela. Não dessas que eu fazia no Point nem no Photoscape. Ela queria brilhar para além da tela do meu computador... Queria brilhar em Hollywood.
Sonhava tão alto que as vezes era difícil alcançá-la. Ela morava com a mãe e três irmãos numa casa com apenas um quarto e sala. A mãe dormia na cama com o mais novo, os outros dois dormiam no chão e ela dormia no sofá da sala. Beatriz era a única menina e a filha mais velha. O pai fugiu quando o mais novo nasceu, não aguentava a própria vida, imagina mais uma!?

Eu conheci a Beatriz no super mercado. Ela tinha apenas 17 anos mas precisava trabalhar para ajudar nas despesas de casa, trabalhava como operadora de caixa. Eu tinha ido comprar pilhas para uma das minhas engenhocas, ela estava no caixa 7, muito bonita e sorridente. Beatriz tinha o cabelo afro preto, usava uma crista trançada nas laterais. Ela  validou o produto, eu paguei e ao receber a factura elogiei o penteado.
Voltei para o super mercado todos os dias da semana seguinte, comprei um milhão de pilhas, giletes, lâmpadas e coisas que aposentei na cave lá de casa. Depois de um mês ganhei coragem e convidei-a para sair. Aceitou em menos tempo que eu demorei para pedir.

Ela era uma sonhadora, batalhadora, tão nova e já tinha as ideias formadas. Não deixava que qualquer um a fizesse de idiota, nem homens cheios de estilo que faziam promessas para a vida toda. Ela tinha objectivos e sabia bem que métodos utilizar para alcançá-los. Poucos acreditavam nela e muitos duvidavam da beleza dos seus sonhos. 
― Tu tens que provar que eles estão errados. 
Eu aconselhava.
― Eu não preciso provar nada para ninguém. Sei bem quem sou e de onde vim. Não sei ainda para onde irei, mas isso nem eles sabem... Eles nem fazem ideia!

Beatriz tinha um brilho diferente, parecia gente de outros tipos, de outros sítios.
― Essa cidade é muito pequena diante do tamanho dos meus sonhos. Eu nasci para brilhar, Nando.

Beatriz frequentava um curso de teatro e sonhava ser actriz, inspirar Woody Allen ou até mesmo Ryan Murphy, ela também cantava muito bem, podia encantar na BroadWay. 

Quando decidiu ir embora, passou lá em casa para se despedir, foi apenas com a roupa do corpo, um saco com os produtos do cabelo e de higiene, e uma pasta com os documentos pessoais e monólogos que tinha escrito. Sim. Beatriz tinha muitos talentos.

Seria egoísmo querer que ela ficasse, o mundo estava a espera dela e ela precisava brilhar. O sonho dela não estava em nenhum programa de computador que eu pudesse manipular.

Ela voou, andou por terras novas, conheceu pessoas como ela, aprendeu línguas e mostrou quem era. Encantou olhos e fez cair queixos. Pela representação, voz e... Ah, não posso deixar de mencionar aquela beleza africana!
Hoje, ela aparece na televisão, já contracenou com o DiCaprio e a Lea Michele. Quase ninguém acredita quando digo que somos amigos, mas uma coisa aprendi com ela ''Não preciso provar nada para ninguém''.
Fico feliz sempre que a vejo numa tela. E tudo o que consigo dizer é:
 ''Brilha, Beatriz. Be a star''. 
E ela brilha. Ela é uma estrela.


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27 agosto, 2013

A barbaridade de Bárbara


 
Lembro-me perfeitamente do dia 11 de Setembro, não pelo atentado às Torres Gêmeas nos Estados Unidos mas sim pela animação dos rapazes do meu prédio. Bela e Bárbara eram as novas vizinhas, irmãs gêmeas e muito bonitas, baixinhas, morenas, usavam o cabelo cacheado até aos ombros. Eu não vi nada tão especial em nenhuma das duas e nem tentei aproximar-me, embora elas morassem no mesmo andar que eu.

Bela era muito extrovertida, rapidamente torna-se amiga de metade da vizinhança, ela sempre sorria e gostava de usar vestidos floridos.
Bárbara era estranha, introvertida, estava sempre com os olhos cansados e lábios secos, não ligava para a aparência e nem para a opinião alheia.
Todo mundo gostava muito da Bela e ela fazia questão de agradar as pessoas, com o tempo até eu comecei a falar com ela, descobri que tínhamos muita coisa em comum, ela também era apaixonada por informática, eu via vida nos olhos dela, mal sabia que a morte estava perto.

Passaram-se 10 meses, as gêmeas saíram animadas para uma ida a praia e ao entardecer eu só conseguia ouvir choros no apartamento ao lado, gritos e passos apressados nas escadas. Não demorou muito para que a notícia de espalhasse: Bela tinha morrido afogada. E o prédio inteiro chorava por perder a menina que oferecia sorrisos.

Eu e os meus pais fomos prestar apoio a família, dei as condolências aos pais e disponibilizei-me para qualquer eventualidade, depois fui abraçar a Bárbara que chorava inconsolavelmente. Nunca tínhamos trocado uma palavra até o dia em que ela foi para a minha casa, e disse que precisava desabafar. 
― Nando, eu matei a Bela. Fui eu que incentivei-lhe e ir para o mar, mesmo sabendo que ela não sabia nadar. A culpa é minha.― Confessou enquanto chorava e abraçou-me.
Contou-me que os pais estavam contra ela e já não lhe tratavam da mesma maneira, diziam que ela era a culpada pela morte da irmã. Bárbara sentia-se muito só e precisava de mim. O ambiente em casa dela tinha se tornado insuportável, os pais discutiam cada vez mais e descontavam a fúria nela. Bárbara tinha se tornado a única filha, saiu da solidão acompanhada para a tristeza solitária.

Ela passava a maior parte do tempo comigo lá em casa ou na varanda, também saíamos algumas vezes. A minha mãe gostava da nossa relação e achava estranho quando não estivéssemos juntos.
A minha mãe chamava a Bárbara de ''amor'' porque os dois eram difíceis de entender.

Bárbara foi a minha primeira namorada, o meu primeiro amor correspondido. Ela as vezes parecia ter problemas mentais, tinha uma obsessão pela morte e já tentou o suicídio inúmeras vezes, fazia cortes na própria pele com as facas de cozinha, lâmina ou canivete.

Ela gostava de fugir de madrugada para ir dormir comigo, ficávamos deitados na cama de barriga para cima e ela introduzia diálogos impensáveis.
― Qual é o teu sonho, Nando?
― Ser um homem bem sucedido e ter uma família feliz. E o teu?
― O meu sonho fugir.
― Fugir de quê?
― De mim.

Uma vez pesquisamos o significado do nome dela na internet e descobrimos que Bárbara significa estrangeira, e é isso mesmo que ela era, um ponto negro no meio de um pano branco. Bárbara não sorria com os lábios, sorria com a alma e eu podia senti-la, os olhos negros quase sempre cansados reflectiam o amor que eu sentia por ela e Bárbara jurava que me amava, mesmo sem amar a ela mesma.

Uma vez, estávamos na varanda a assistir o nascer da lua, ela apoiava a cabeça no meu ombro.
― A vida é bela, meu amor.― Eu disse baixinho.
― Não, Nando. Bela é a morte. A vida sou eu.'' Ela corrigiu com a voz suave.

 
Eu fui o primeiro homem da vida dela e ela a primeira mulher da minha, experimentamos ao mesmo tempo o primeiro cigarro e o primeiro orgasmo. Aquela foi a melhor noite das nossas vidas, a única vez que vi um sorriso não só na alma mas no rosto dela. Dormimos abraçados, aquecidos pelo prazer e pelo fumo, na minha cama de solteiro, com a janela fechada, para não sermos alcançados pelos problemas do mundo.

Na manhã seguinte, a minha mãe acordou-me sobressaltada, olhei para o outro lado da cama e a Bárbara já não estava. A janela estava aberta e lá de baixo ouvia gritos e choros, os passos apressados na escada me eram familiares. Na mesa de cabeceira encontrei um bilhete:

'' Ao teu lado vivi os melhores dias de sempre, a noite foi incrível mas precisei sair sem te acordar, vou para a minha casa realizar o meu sonho, vou fugir de mim mas espero continuar viva ao teu lado. Amo-te hoje e sempre.
P.s: A morte é Bela, eu sou a vida.''

Eu não podia acreditar naquilo. Recusei-me a olhar pela janela para ver coisas duras para os olhos e para o coração. Ouvi o barulho da ambulância e decidi confirmar as minhas suspeitas. Era verdade, a Bárbara estava lá em baixo, feita aos pedaços. A minha mãe chorou e abraçou-me.

―  Fernando, o amor acabou. ―  Disse ela entre um soluço e outro.
―  Sim. Desfez-se, partiu-se, foi-se. O amor morreu, mamã. Morreu.''

Os dias passaram, eu recuperei-me e continuei a olhar para frente. Lembro-me sempre da nossa última noite, a melhor das nossas vidas, quando ela sorriu pela primeira vez, quando ela entregou-se pela primeira vez e eu me senti amado. Lembro-me daqueles olhos calmos, sempre escuros e sossegados, do rosto pálido e lábios rosados. E sempre que desanimo ouço aquela voz suave sussurrar-me no meu ouvido ''A morte é bela, a vida é Bárbara.''

Ah, que barbaridade!
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