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18 julho, 2018

Ninna, a bailarina. (da série: Os Amores de Nando)




Ninna, a bailarina, abriu a porta da minha vida, sem aviso prévio, chegando com delicadeza no falar e cinesia na ponta dos pés. Em rodopios, apresentou-me a subtileza de uma vida cheia de ritmos esperançosos. Foi então que estendi as minhas mãos e convidei-a para uma visita guiada ao meu coração, era pequeno mas tinha espaço para nós os dois e um abraço quente nos dias de cacimbo.

Sentamo-nos no jardim dos encontros e ao trocarmos palavras de conhecimento, sabíamos, naquele mesmo momento, que o amor tinha acabado de beijar as nossas mãos. Então sorrimos, assim, de mão beijada. Tudo era magia, mas nada desaparecia. Aproveitávamos a vida com adrenalina, porque sabíamos que onde havia intensidade a efemeridade também se fazia presente. 
Havia uma, aliás, havia várias peculiaridades sobre a Ninna, a bailarina. Ela não chorava com os olhos, nunca! Em vez disso, chorava por dentro. Ela acreditava que o exterior era apenas uma capa e que as verdadeiras batalhas são travadas no nosso íntimo. Ninna, recebia de mim todas as compressas e atitudes. No início da nossa relação, ela gostava que eu tocasse música clássica e a apreciasse dançar, e eu adorava deixar-me levar pela suavidade dos seus movimentos.
Por ela, e para ela, dei o melhor de mim. 

O nosso primeiro brinde, em Janeiro de 2018 foi: '' À magia dos começos ''

Porque à esta magia atribuíamos o frio na barriga, as borboletas no estômago, o congelar delicado dos nossos corpos nos segundos que antecediam o toque. Naqueles instantes nunca paramos de sorrir, procurávamos sempre razões para encontrar a próxima maravilha do mundo. O ângulo do sorriso  dela ampliava-se cada vez mais, Ninna só sabia sorrir. Sorria ao contemplar o vazio e ao preencher os silêncios, sorria até mesmo no momento em que me confessou que já não sabia dançar-

''Mas como assim?'' Ela era bailarina há mais de 10 anos, como era possível? 
''Mas eu já não sei, Nando. Estou com bloqueios. Desaprendi.'' 
Aproximei-me e abracei-a antes de a tocar. Despimo-nos, e aí, no meu quarto, nus, deixei-a repousar na cama e caminhei até o meu computador. Coloquei Tchaikovsky a tocar.
''Swan Lake!'' Ninna reconheceu a música. 
'' Dança, Ninna.'' Pedi.
Levantou da cama, com os seios empinados tão doces e firmes. Os pés para fora, na primeira posição. Tentou fazer um movimento, mas falhou. Com os olhos arregalados, encorajei-a a continuar. Ninna deu um salto, uma pirueta, um demi-plié, depois um grand-plié e logo a seguir uma queda. Caiu no chão frio do meu quarto escuro. Baixou a cabeça e chorou a espera do consolo de Fevereiro.

Fevereiro chegou, e trouxe consigo algo que Ninna nunca conheceu. Ela já não sorrias tanto, estavas desiludida consigo mesma e culpava os seus sapatos. O cabelo já não queria estar preso, o corpo já não reconhecia os seus trajes.

Já era Março, quando Ninna bateu a porta da minha casa. Veio animada, motivada, jurava que aquele era o dia em que reaprenderia a dançar. Pediu-me para colocar a mesma música que da última vez, obedeci. Ela tentou, eu juro que ela tentou, mas falhou novamente. Foi então que ela chorou, sem consolo e disse, pela primeira vez, que sabia a causa do súbito esquecimento. Era eu. Era eu o causador do fim da sua arte. Ninna confessou que a felicidade que sentia ao meu lado fazia com que perdesse a inspiração, ela não conseguia ser criativa a sorrir por dentro e por fora. O interior era reservado para chorar, sofrer e criar.

Naquele momento percebi que o melhor seria terminar o nosso romance. Pedi para que ela nunca mais me procurasse, pois eu estava disposto a abrir mão dela se isso significasse o renascimento da sua habilidade de dançar.

Assim foi durante o resto do ano. Depois de algum tempo, ouvi dizer que Ninna tinha participado do casting de uma das melhores escolas de dança do país e tinha passado. Recuperou a sua fluidez e fez da dança a sua vida, outra vez.  Ouvi outras coisas sobre ela, os prémios que conquistou e as aparições no exterior.
Não podia evitar sorrir e agradecer ao universo por ter nos ensinado a deixar ir, por nos ter ajudado a perceber que nem sempre quem amamos é o melhor para nós. 
Não podia evitar pensar na Ninna, bailarina. Tão feliz na sua infelicidade.
Nina, a bailarina... Sempre precisou da falta de amor para sentir, criar e dançar.

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21 abril, 2015

A vida é Bárbara


 Lembro-me perfeitamente do dia 11 de Setembro, não pelo atentado às Torres Gêmeas nos Estados Unidos mas sim pela animação dos rapazes do meu prédio. Bela e Bárbara eram as novas vizinhas, irmãs gêmeas e muito bonitas, baixinhas, morenas, usavam o cabelo cacheado até aos ombros. Eu não vi nada tão especial em nenhuma das duas e nem tentei aproximar-me, embora elas morassem no mesmo andar que eu.

Bela era muito extrovertida, rapidamente tornou-se amiga de metade da vizinhança, ela sempre sorria e gostava de usar vestidos floridos.
Bárbara era estranha, introvertida, estava sempre com os olhos cansados e lábios secos, não ligava para a aparência e nem para a opinião alheia.
Todo mundo gostava muito da Bela e ela fazia questão de agradar as pessoas, com o tempo até eu comecei a falar com ela, descobri que tínhamos muita coisa em comum, ela também era apaixonada por informática, eu via vida nos olhos dela, mal sabia que a morte estava perto.

Passaram-se 10 meses, as gêmeas saíram animadas para uma ida a praia e ao entardecer eu só conseguia ouvir choros no apartamento ao lado, gritos e passos apressados nas escadas. Não demorou muito para que a notícia de espalhasse: Bela tinha morrido afogada. E o prédio inteiro chorava por perder a menina que oferecia sorrisos.

Eu e os meus pais fomos prestar apoio a família, dei as condolências aos pais e disponibilizei-me para qualquer eventualidade, depois fui abraçar a Bárbara que chorava inconsolavelmente. Nunca tínhamos trocado uma palavra até o dia em que ela foi para a minha casa, e disse que precisava desabafar. 
― Nando, eu matei a Bela. Fui eu que incentivei-lhe e ir para o mar, mesmo sabendo que ela não sabia nadar. A culpa é minha.― Confessou enquanto chorava e abraçou-me.
Contou-me que os pais estavam contra ela e já não lhe tratavam da mesma maneira, diziam que ela era a culpada pela morte da irmã. Bárbara sentia-se muito só e precisava de mim. O ambiente em casa dela tinha se tornado insuportável, os pais discutiam cada vez mais e descontavam a fúria nela. Bárbara tinha se tornado a única filha, saiu da solidão acompanhada para a tristeza solitária.
Ela passava a maior parte do tempo comigo lá em casa ou na varanda, também saíamos algumas vezes. A minha mãe gostava da nossa relação e achava estranho quando não estivéssemos juntos.
A minha mãe chamava a Bárbara de ''amor'' porque os dois eram difíceis de entender.

Bárbara foi a minha primeira namorada, o meu primeiro amor correspondido. Ela as vezes parecia ter problemas mentais, tinha uma obsessão pela morte e já tentou o suicídio inúmeras vezes, fazia cortes na própria pele com as facas de cozinha, lâmina ou canivete.

Ela gostava de fugir de madrugada para ir dormir comigo, ficávamos deitados na cama de barriga para cima e ela introduzia diálogos impensáveis.
― Qual é o teu sonho, Nando?
― Ser um homem bem sucedido e ter uma família feliz. E o teu?
― O meu sonho fugir.
― Fugir de quê?
― De mim.

Uma vez pesquisamos o significado do nome dela na internet e descobrimos que Bárbara significa estrangeira, e é isso mesmo que ela era, um ponto negro no meio de um pano branco. Bárbara não sorria com os lábios, sorria com a alma e eu podia senti-la, os olhos negros quase sempre cansados reflectiam o amor que eu sentia por ela e Bárbara jurava que me amava, mesmo sem amar a ela mesma.

Uma vez, estávamos na varanda a assistir o nascer da lua, ela apoiava a cabeça no meu ombro.
― A vida é bela, meu amor.― Eu disse baixinho.
― Não, Nando. Bela é a morte. A vida sou eu.'' Ela corrigiu com a voz suave.


Eu fui o primeiro homem da vida dela e ela a primeira mulher da minha, experimentamos ao mesmo tempo o primeiro cigarro e o primeiro orgasmo. Aquela foi a melhor noite das nossas vidas, a única vez que vi um sorriso não só na alma mas no rosto dela. Dormimos abraçados, aquecidos pelo prazer e pelo fumo, na minha cama de solteiro, com a janela fechada, para não sermos alcançados pelos problemas do mundo.

Na manhã seguinte, a minha mãe acordou-me sobressaltada, olhei para o outro lado da cama e a Bárbara já não estava. A janela estava aberta e lá de baixo ouvia gritos e choros, os passos apressados na escada me eram familiares. Na mesa de cabeceira encontrei um bilhete:

'' Ao teu lado vivi os melhores dias de sempre, a noite foi incrível mas precisei sair sem te acordar, vou para a minha casa realizar o meu sonho, vou fugir de mim mas espero continuar viva ao teu lado. Amo-te hoje e sempre.
P.s: A morte é Bela, eu sou a vida.''

Eu não podia acreditar naquilo. Recusei-me a olhar pela janela para ver coisas duras para os olhos e para o coração. Ouvi o barulho da ambulância e decidi confirmar as minhas suspeitas. Era verdade, a Bárbara estava lá em baixo, feita aos pedaços. A minha mãe chorou e abraçou-me.

―  Fernando, o amor acabou. ―  Disse ela entre um soluço e outro.
―  Sim. Desfez-se, partiu-se, foi-se. O amor morreu, mamã. Morreu.''

Os dias passaram, eu recuperei-me e continuei a olhar para frente. Lembro-me sempre da nossa última noite, a melhor das nossas vidas, quando ela sorriu pela primeira vez, quando ela entregou-se pela primeira vez e eu me senti amado. Lembro-me daqueles olhos calmos, sempre escuros e sossegados, do rosto pálido e lábios rosados. E sempre que desanimo ouço aquela voz suave sussurrar-me no meu ouvido ''A morte é bela, a vida é Bárbara.''

Ah, que barbaridade!
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11 junho, 2014

Alguns anos depois... Nando? O que é feito de ti?


O amor pode ter várias definições, tudo depende do definidor e da sua experiência de vida. Para os pessimistas o amor é um desastre, a pior das catástrofes, para os românticos o amor é a força que move o mundo, e já para pessoas como eu o amor é...Bem...O amor é uma coisa um pouco coiso... Bem... Pessoas como eu não sabem o que é o amor, tudo isso é muito confuso para mim porque muitas vezes pensei que o amor tivesse cruzado o meu caminho mas quando encostei para abraçá-lo tropecei e tive quedas graves que feriram até o meu coração. Deixei de procurar, porque dizem que o amor encontra quem está despreocupado, desisti da ideia de tentar encontrar uma alma gémea ou apaixonar-me a primeira vista por alguém.

Desde a minha adolescência que me apaixono com facilidade, o meu primeiro amor foi a Clarisse com dois ''s'', uma moça alta e magra que gostava de tirar fotos semi-nua para as redes sociais. Vivi algumas aventuras com a Maria Joana, ela tinha problemas com a nicotina e fazia amor com a fantasia. Depois disso veio a Camille, uma hipster francesa. O golpe mais profundo que o amor me deu foi a Bárbara, a primeira mulher da minha vida, que me abandonou para buscar a liberdade que só pode ser encontrada com a morte. Tive também a Beatriz que sonhava em ser actriz e agora brilha em HollyWood.

Hoje, tenho 25 anos e algumas marcas de amores errados. Continuo a ser um expert em tratamento da informação por meios automáticos e electrónicos e tenho a minha própria empresa, tenho carros e telemóveis da última geração, tenho uma casa enorme ocupada pelo vazio da vida que levo. Tenho uma carreira brilhante mas não tenho ninguém para abraçar nas noites frias e comemorar as minhas vitórias. 
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08 janeiro, 2014

Be-atriz. Be-a-star.

Beatriz queria ser uma estrela. Não dessas que eu fazia no Point nem no Photoscape. Ela queria brilhar para além da tela do meu computador... Queria brilhar em Hollywood.
Sonhava tão alto que as vezes era difícil alcançá-la. Ela morava com a mãe e três irmãos numa casa com apenas um quarto e sala. A mãe dormia na cama com o mais novo, os outros dois dormiam no chão e ela dormia no sofá da sala. Beatriz era a única menina e a filha mais velha. O pai fugiu quando o mais novo nasceu, não aguentava a própria vida, imagina mais uma!?

Eu conheci a Beatriz no super mercado. Ela tinha apenas 17 anos mas precisava trabalhar para ajudar nas despesas de casa, trabalhava como operadora de caixa. Eu tinha ido comprar pilhas para uma das minhas engenhocas, ela estava no caixa 7, muito bonita e sorridente. Beatriz tinha o cabelo afro preto, usava uma crista trançada nas laterais. Ela  validou o produto, eu paguei e ao receber a factura elogiei o penteado.
Voltei para o super mercado todos os dias da semana seguinte, comprei um milhão de pilhas, giletes, lâmpadas e coisas que aposentei na cave lá de casa. Depois de um mês ganhei coragem e convidei-a para sair. Aceitou em menos tempo que eu demorei para pedir.

Ela era uma sonhadora, batalhadora, tão nova e já tinha as ideias formadas. Não deixava que qualquer um a fizesse de idiota, nem homens cheios de estilo que faziam promessas para a vida toda. Ela tinha objectivos e sabia bem que métodos utilizar para alcançá-los. Poucos acreditavam nela e muitos duvidavam da beleza dos seus sonhos. 
― Tu tens que provar que eles estão errados. 
Eu aconselhava.
― Eu não preciso provar nada para ninguém. Sei bem quem sou e de onde vim. Não sei ainda para onde irei, mas isso nem eles sabem... Eles nem fazem ideia!

Beatriz tinha um brilho diferente, parecia gente de outros tipos, de outros sítios.
― Essa cidade é muito pequena diante do tamanho dos meus sonhos. Eu nasci para brilhar, Nando.

Beatriz frequentava um curso de teatro e sonhava ser actriz, inspirar Woody Allen ou até mesmo Ryan Murphy, ela também cantava muito bem, podia encantar na BroadWay. 

Quando decidiu ir embora, passou lá em casa para se despedir, foi apenas com a roupa do corpo, um saco com os produtos do cabelo e de higiene, e uma pasta com os documentos pessoais e monólogos que tinha escrito. Sim. Beatriz tinha muitos talentos.

Seria egoísmo querer que ela ficasse, o mundo estava a espera dela e ela precisava brilhar. O sonho dela não estava em nenhum programa de computador que eu pudesse manipular.

Ela voou, andou por terras novas, conheceu pessoas como ela, aprendeu línguas e mostrou quem era. Encantou olhos e fez cair queixos. Pela representação, voz e... Ah, não posso deixar de mencionar aquela beleza africana!
Hoje, ela aparece na televisão, já contracenou com o DiCaprio e a Lea Michele. Quase ninguém acredita quando digo que somos amigos, mas uma coisa aprendi com ela ''Não preciso provar nada para ninguém''.
Fico feliz sempre que a vejo numa tela. E tudo o que consigo dizer é:
 ''Brilha, Beatriz. Be a star''. 
E ela brilha. Ela é uma estrela.


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27 agosto, 2013

A barbaridade de Bárbara


 
Lembro-me perfeitamente do dia 11 de Setembro, não pelo atentado às Torres Gêmeas nos Estados Unidos mas sim pela animação dos rapazes do meu prédio. Bela e Bárbara eram as novas vizinhas, irmãs gêmeas e muito bonitas, baixinhas, morenas, usavam o cabelo cacheado até aos ombros. Eu não vi nada tão especial em nenhuma das duas e nem tentei aproximar-me, embora elas morassem no mesmo andar que eu.

Bela era muito extrovertida, rapidamente torna-se amiga de metade da vizinhança, ela sempre sorria e gostava de usar vestidos floridos.
Bárbara era estranha, introvertida, estava sempre com os olhos cansados e lábios secos, não ligava para a aparência e nem para a opinião alheia.
Todo mundo gostava muito da Bela e ela fazia questão de agradar as pessoas, com o tempo até eu comecei a falar com ela, descobri que tínhamos muita coisa em comum, ela também era apaixonada por informática, eu via vida nos olhos dela, mal sabia que a morte estava perto.

Passaram-se 10 meses, as gêmeas saíram animadas para uma ida a praia e ao entardecer eu só conseguia ouvir choros no apartamento ao lado, gritos e passos apressados nas escadas. Não demorou muito para que a notícia de espalhasse: Bela tinha morrido afogada. E o prédio inteiro chorava por perder a menina que oferecia sorrisos.

Eu e os meus pais fomos prestar apoio a família, dei as condolências aos pais e disponibilizei-me para qualquer eventualidade, depois fui abraçar a Bárbara que chorava inconsolavelmente. Nunca tínhamos trocado uma palavra até o dia em que ela foi para a minha casa, e disse que precisava desabafar. 
― Nando, eu matei a Bela. Fui eu que incentivei-lhe e ir para o mar, mesmo sabendo que ela não sabia nadar. A culpa é minha.― Confessou enquanto chorava e abraçou-me.
Contou-me que os pais estavam contra ela e já não lhe tratavam da mesma maneira, diziam que ela era a culpada pela morte da irmã. Bárbara sentia-se muito só e precisava de mim. O ambiente em casa dela tinha se tornado insuportável, os pais discutiam cada vez mais e descontavam a fúria nela. Bárbara tinha se tornado a única filha, saiu da solidão acompanhada para a tristeza solitária.

Ela passava a maior parte do tempo comigo lá em casa ou na varanda, também saíamos algumas vezes. A minha mãe gostava da nossa relação e achava estranho quando não estivéssemos juntos.
A minha mãe chamava a Bárbara de ''amor'' porque os dois eram difíceis de entender.

Bárbara foi a minha primeira namorada, o meu primeiro amor correspondido. Ela as vezes parecia ter problemas mentais, tinha uma obsessão pela morte e já tentou o suicídio inúmeras vezes, fazia cortes na própria pele com as facas de cozinha, lâmina ou canivete.

Ela gostava de fugir de madrugada para ir dormir comigo, ficávamos deitados na cama de barriga para cima e ela introduzia diálogos impensáveis.
― Qual é o teu sonho, Nando?
― Ser um homem bem sucedido e ter uma família feliz. E o teu?
― O meu sonho fugir.
― Fugir de quê?
― De mim.

Uma vez pesquisamos o significado do nome dela na internet e descobrimos que Bárbara significa estrangeira, e é isso mesmo que ela era, um ponto negro no meio de um pano branco. Bárbara não sorria com os lábios, sorria com a alma e eu podia senti-la, os olhos negros quase sempre cansados reflectiam o amor que eu sentia por ela e Bárbara jurava que me amava, mesmo sem amar a ela mesma.

Uma vez, estávamos na varanda a assistir o nascer da lua, ela apoiava a cabeça no meu ombro.
― A vida é bela, meu amor.― Eu disse baixinho.
― Não, Nando. Bela é a morte. A vida sou eu.'' Ela corrigiu com a voz suave.

 
Eu fui o primeiro homem da vida dela e ela a primeira mulher da minha, experimentamos ao mesmo tempo o primeiro cigarro e o primeiro orgasmo. Aquela foi a melhor noite das nossas vidas, a única vez que vi um sorriso não só na alma mas no rosto dela. Dormimos abraçados, aquecidos pelo prazer e pelo fumo, na minha cama de solteiro, com a janela fechada, para não sermos alcançados pelos problemas do mundo.

Na manhã seguinte, a minha mãe acordou-me sobressaltada, olhei para o outro lado da cama e a Bárbara já não estava. A janela estava aberta e lá de baixo ouvia gritos e choros, os passos apressados na escada me eram familiares. Na mesa de cabeceira encontrei um bilhete:

'' Ao teu lado vivi os melhores dias de sempre, a noite foi incrível mas precisei sair sem te acordar, vou para a minha casa realizar o meu sonho, vou fugir de mim mas espero continuar viva ao teu lado. Amo-te hoje e sempre.
P.s: A morte é Bela, eu sou a vida.''

Eu não podia acreditar naquilo. Recusei-me a olhar pela janela para ver coisas duras para os olhos e para o coração. Ouvi o barulho da ambulância e decidi confirmar as minhas suspeitas. Era verdade, a Bárbara estava lá em baixo, feita aos pedaços. A minha mãe chorou e abraçou-me.

―  Fernando, o amor acabou. ―  Disse ela entre um soluço e outro.
―  Sim. Desfez-se, partiu-se, foi-se. O amor morreu, mamã. Morreu.''

Os dias passaram, eu recuperei-me e continuei a olhar para frente. Lembro-me sempre da nossa última noite, a melhor das nossas vidas, quando ela sorriu pela primeira vez, quando ela entregou-se pela primeira vez e eu me senti amado. Lembro-me daqueles olhos calmos, sempre escuros e sossegados, do rosto pálido e lábios rosados. E sempre que desanimo ouço aquela voz suave sussurrar-me no meu ouvido ''A morte é bela, a vida é Bárbara.''

Ah, que barbaridade!
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21 maio, 2013

Camille. Une très belle femme

Camille era filha de uma amiga da minha mãe dos tempos da faculdade que casou-se com um milionário francês. Camille nasceu e cresceu em Paris, mas por causa da mãe conseguia perceber e dizer algumas palavras em Português.

Elas estavam hospedadas em minha casa, chegaram em Julho e iam embora em Agosto, quando as aulas de Camille começassem.

Camille tinha a minha idade e tinha passado para o último ano do ensino médio. Nós nunca conseguimos manter uma conversa por mais de 10 minutos, o meu Francês nem sequer chegava ao nível iniciante e o Português dela estacionava lá. Apesar disso nós tinhamos muita afinidade, podiamos ficar horas calados sem nos sentirmos desconfortáveis, o facto de estarmos juntos era um calmante.

A maioria das saídas eram com a família toda, mostravamos a cidade, as praias, os restaurantes e sobretudo os museus, eu tentava explicar-lhe a história de cada peça com os meus gestos desajeitados. Ela não percebia e morriamos de rir pelo meu papel de parvo.

Camille era indepentende, mesmo num país estranho, ela saía sozinha, fazia compras, ia ao cinema, ao teatro, e voltava com histórias mirabolantes de mal entendidos que aconteciam entre ela e os comerciantes.
Ela era inovadora, hipster, criadora de tendências... Usava uma coroa de flores no cabelo e dizia que era para atrair borboletas. Nem demorou uma semana para as meninas da minha rua começarem a imitar. 

Na última semana de Julho fomos para o Festival Internacional de Música, estava um piano a disposição dos presentes, ela perguntou qualquer coisa em francês para a mãe que acenou de forma positiva com a cabeça. Camille correu para o piano, estalou os dedos, fechou os olhos e começou a tocar Charles Valentin Alkan - Scherzo Diabolico, deixando todos maravilhados, de olhos arregalados e queixo caído. 

Assim que terminou de tocar, chuveram aplausos e propostas de senhores da alta sociedade, ela balançavou a cabeça em negação e a mãe puxou-a para irmos embora.

― Tu tocas tão bem, Camille! És muito talentosa.
Elogiei, sem esperanças que ela entendesse.
― Merci, Fernando. 
Oh... Ela entendeu.
Sorriu e respirou fundo, depois de alguns segundos disse: ―Je pense que je t'aime.
Eu não sabia o que aquilo significava, mas deduzi que fosse uma forma de reforçar o ''Merci'' do agradecimento. Sorri e fiz um gesto carinhoso com a mão no rosto dela.

Depois daquela noite ela disse  ''Je pense que je t'aime'' muitas vezes e eu só pensava ''Ah, esses estrangeiros agradecem sem motivo''.

Passaram-se 5 dias e já era Agosto, Camille e a mãe dela foram embora, não consegui despedir-me dela porque estava na escola. Mas quando ela chegou em Paris, enviou-me um cartão postal.

“Je ne sais pas si je trouve mes yeux dans tes yeux. Je ne sais pas adoucir ma douleur avec vous, mais où je vais prendre votre regard et où tu ma douleur.”

Senti-me embaraçado por não conseguir ler o que estava escrito, e decidi inscrever-me no curso de Francês. A duração era de 3 meses. Comecei, continuei e terminei.

No fim do curso consegui traduzir o que ela dizia no cartão:
“Já não sei se os meus olhos encontrarão os teus olhos. Já não se adoçará junto a ti a minha dor, mas por onde for levarei o teu olhar e para onde fores levarás a minha dor.”

No fim do curso aprendi que:
''Je pense que je t'aime'' não tem nada a ver com  agradecimentos, mas significa: ''Eu acho que te amo.''

No fim do curso fiquei apenas com um arrependimento:
''Ah, quem me dera ter aprendido Francês há mais tempo''.
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20 maio, 2013

Mary Jane não era Maria Joana

Era uma madrugada enfadonha, eu estava sem sono e com poucos planos para a manhã seguinte. Vi a solução para o meu tédio, numa sala de chat. Li a lista dos participantes e escolhi o nome mais bonito que encontrei: ''Mary Jane''.

Fernando Santos diz: Olá. Tudo bem?
Mary Jane diz: Oi. Comigo as coisas nunca estão bem. E contigo?
Fernando Santos diz: Normal.
Mary Jane: Normal não é bom sinal.

Eu não sabia mais o que dizer, e ela também não falou mais nada. Então tentei puxar conversa com outras pessoas mas ouvi o som de uma nova mensagem.

Mary Jane diz: Suponho que tenhas te assustado comigo. Eu sou estranha, mas sou fixe. Juro!

Eu respondi, disse que não estava assustado... Menti. Ela disse que ficava mais aliviada assim. Foram longas horas de boa conversa, falamos sobre música e futebol, ela disse que era morena, alta e tinha cabelo preto. Contou-me que fumava marijuana e cigarros, eu contei-lhe que era nerd e tinha uma ONG de combate às drogas. Falamos até amanhecer. Trocamos números de telefone e alguns links.

Na manhã seguinte, eu recebi uma mensagem no telemóvel, eram 9 horas.

''Estou na escola, não aguento mais isso. Vem buscar-me''

Ela tinha me dito onde estudava, eu ainda não tinha carro, a escola era apenas duas ruas depois da minha, fui de bicicleta. Eu estava com um casaco e calça olímpica, fazia frio. Quando cheguei lá, não vi nenhuma morena de cabelo preto. Apenas uma moça loira que estava com um cigarro entre os dedos. Ela aproximou-se de mim.

― Tu deves ser o Fernando. Mary Jane. Satisfação.
E subiu na bicicleta.
― Mas... Tu disseste que eras morena, alta e que tinhas cabelo preto...
― A Mary Jane é assim. Eu não...
― Ahn? Como assim?
― Não faças muitas perguntas. Leva-me daqui.

Não tinha muitas opções de onde ir com uma bicicleta, perguntei se ela tinha alguma preferência, disse que podíamos ir para a minha casa. E fomos... Levei-a para  a cave, ela pediu-me para usar o computador, abriu o youtube e meteu a tocar umas músicas deprimentes da Lana Del Rey, abriu a mochila e tirou um maço de cigarros, Malboro, se não me engano.

― Mas... Isso faz mal.
― Não,Fernando. Isso cura o mal.

De repente ela começou a tirar o uniforme, ficou só com um top e cuecas. Tinha um piercing no umbigo.
Para mim aquela era a visão mais inacreditável do mundo, eu estava com uma loira semi-nua a fumar deitada no sofá da minha cave. Deu dois tragos no cigarro e quando expulsou o fumo, começou a contar sobre o pai que nunca tinha tempo para nada, a mãe que gastava tempo demais com a vida alheia e sobre ela que tentava assimilar a situação. E nunca conseguia.

Quando era quase meio dia e meia, fui deixá-la na escola, o motorista estava a espera dela. Maybach Landaulet. Nem acreditei que estava na minha cidade. Mary Jane tinha muito dinheiro, mas era tão pobre...

Nós repetimos aquele ritual todos os dias depois daquele, eu ia apanhá-la as 9 da manhã e devolvê-la ao meio dia.

― Eu não acho que devas continuar a perder aulas. Isso é errado.
Eu aconselhava.
 ― Errado é ser infeliz.
Ela respondia, acendendo um novo cigarro.

Ela era estranha e eu gostava daquilo. Apesar dos problemas que tinha com a nicotina, era a rapariga mais suave que já conheci. Depois de três cigarros, ela ficava mais dócil que a brisa do entardecer. Tirava a roupa sempre que ia lá  para casa. Eu nunca tive segundas intenções.

 ― Fernando, tu és gay?
 ― Ah, Mary. Que pergunta. Claro que não.
 ― E por que é que que tu não te sentes atraído por mim?
 ― Eu sinto.
 ― E por que  é que nunca tentaste nada? Eu fico quase nua no teu sofá, se fosses um homem de verdade saltavas-me logo para cima.
 ― Eu respeito-te Mary Jane. Só por isso. Para ser um homem de verdade é preciso ter calma.

Ela sorriu, aumentou o volume da música e voltou a atenção para os seus cigarros. Aquele dia não conversamos muito, só quando fui deixá-la na escola, deu-me um beijo no rosto e disse:

 ― Fernando, tu és mais homem que todos eles juntos.
Apontou para os rapazes na porta da escola.

Depois disso a nossa relação evoluiu, já não era só uma amizade. Roubavamo-nos beijos e ficávamos abraçados no sofá, eu ouvia os lamentos dela com tanta atenção que até esquecia de mim. Na despedida dávamos dois ou três amassos no corpo, ou eram cinco? Ah, isso não importa. Nós sabíamos o que éramos um para o outro e não precisávamos de um título para ter a certeza.

Mary Jane não gostava de discotecas. Era essa a única coisa que tínhamos em comum.
― Esses lugares estão sempre cheios de pessoas vazias.
Ela dizia e eu concordava.
Chegou uma época em que eu passava na escola e ela já não estava na porta a minha espera, o telefone dava fora de área e no chat ela já nem entrava. Passaram dois meses e decidi entrar na escola dela. Perguntei às pessoas que estavam no pátio e ninguém conhecia nenhuma Mary Jane. Fui para a secretaria e disseram que não tinham nenhuma aluna com aquele nome. Uma das secretárias perguntou-me qual era a classe dela, e deu-me um documento com a foto de todos alunos daquela turma. Encontrei o rosto dela, mas o nome era outro.

  ― Maria Joana do Carmo Assunção, Maria Joana do Carmo Assunção.
Repeti mentalmente.

Perguntei sobre a tal Maria Joana e eles disseram-me que era uma aluna tóxico-dependente que desenvolveu um quadro de esquizofrenia, já não frequentava a escola porque os pais tinham a mandado para um hospital psiquiátrico no centro da cidade.

Fiquei em choque. Perguntei se eles tinham o endereço. Disseram que sim. Deram-mo. Chamei um táxi e fui até lá. Os pacientes só podiam receber visitas da família, então fiquei no pátio do hospital a espera da hora dela de sair para apanhar ar.

Ela estava mais magra, pálida, usava roupas brancas e o cabelo preso num rabo-de-cavalo. Logo que me viu, correu e abraçou-me. A enfermeira tentou segurá-la, mas falhou.

 ― Fernando!
Abraçou-me e começou a chorar.
 ― O que foi, Mary?
― Tudo... Foi a paz, foi a alegria... Não há mais nada aqui dentro.
Meteu a mão no peito.
 ― Alguma vez existiu alegria?
Questionei.
―  Para mim não, mas para a Mary Jane sim. Ela não é maluca como eu. Tu gostavas dela, não?
As lágrimas escorriam e soluços brotavam da sua garganta.
― A Mary Jane é uma personagem que tu criaste para fugir da realidade.
― E eu não podia fugir para sempre?
Perguntou, os olhos enchiam-se de mais água.
 ― Não. Tu não podes adiar a realidade.
 ― Porquê? Nós somos tão jovens, Fernando!
 ―  É verdade, Maria Joana. É verdade. ― Fiz uma pausa. ― Nós somos tão jovens para ter tantos problemas!

Eu gostava de uma moça que não existia...
Ela vivia uma vida que não lhe pertencia...
'' Errado é ser infeliz''.
Ela dizia.
'' Errado é ser a Maria Joana''. Eu pensava.

Depois desse dia nunca mais nos vimos, mas a Mary Jane ficou viva para sempre nos meus pensamentos. Mary Jane gostava de marijuana mas não era a Maria Joana.
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17 maio, 2013

Clarisse com dois ''S''

Poucos sabiam da minha paixão por ela, e quando digo ''poucos'' falo dos leitores de um blog medíocre que eu escrevia no 10º ano. Apaguei logo que terminei o ensino médio, porque não recebia visitas nem comentários. O que há para comentar sobre a vida de um adolescente expert em informática e apaixonado por uma jovem-adulta alta e magra? O resultado dessa equação era sempre o mesmo. NTS. Sem Solução.

Ela tinha cabelos crespos, pouco rebeldes, livres ao vento. Tinha umas sardas delicadas no rosto e um tom de pele que parecia mel. Ela era doce e amarga, tinha um sorriso que traduzia tristeza. Já tinha sido magoada por muitos homens, e como quem acredita em contos de fadas, continuava a procura de alguém para fugir de cavalo branco numa tarde ensolarada.

Ela ja encontrou príncipes mas depois do beijo eles viravam sapos. Tinha esse azar de algumas coisas acontecerem ao contrário. Mas ela não desistia, parecia até gostar de sofrer, eu sempre dizia para ela procurar um pouco de felicidade com alguém que gostasse dela de verdade, e encaracolando os fios crespos com a ponta dos dedos ela respondia

―  Isso não existe mais, Fernando. Estamos no século 21. 

'' Pois é, século dos amores não correspondidos.'' Essa foi uma das coisas que eu nunca disse.

Ela deitava no meu colo e contava sobre as suas relações, umas em que estava sozinha, outras que eram um triângulo qualquer coisa menos amoroso. Uma das vezes que ela veio aqui em casa, tinha as lunetas inflamadas de tanto chorar, descobriu que o fulano andava com a beltrana, porque uma outra fulana tinha espalhado na rede social. Ah! A culpa era sempre das fulanas. Ela abraçou-me e chorou no meu ombro. Não limpei as suas lágrimas, eu nunca limpo. Sentimento é para ser livre, lágrimas devem fazer o seu percurso! Deixei que ela chorasse e esvaziasse o peito. 

Ela via em mim uma espécie de salvação.
― E agora? E agora Nando?―  Perguntava sempre que as coisas corressem mal.
'' E agora fica comigo. Eu sou pequeno,mas prometo nunca te fazer chorar.'' Essa foi uma das coisas que eu nunca disse. 

Ela gostava de mim também, gostava muito. Dizia que eu era o irmão mais novo que nunca teve.
Olha só que trágico!  Eu tinha 15 anos e ela tinha acabado de fazer 20.

Nós nos conhecemos quase sem querer, ela estava maluca atrás de alguém que arranjasse o seu computador, quando ouviu sobre mim na rádio do bairro.

''Tum tum tum tum tum tum...''

Foi assim que ela bateu a porta da minha casa, como se estivesse a fugir da morte, sem sentido de ritmo. Ela era tão atrapalhada.

Logo que eu abri a porta ela disparou:

―  Tenho um vírus no computador.
―  Eu cuido disso.― Respondi.

Depois falamos mais vezes, primeiro ela perguntava-me sobre computadores e smartPhones, depois contava um ou dois segredos da sua vida desastrosa, eu sorria sem graça e nunca sabia o que dizer, mas com o tempo fui aprendendo. Ela tinha algumas crises existenciais nos dias de TPM. Eu comprava chocolates e comíamos no sofá enquanto jogávamos ''Call of Duty''.

―  Sabes... Tu és o único rapaz que me oferece chocolates.
―  E tu és a única rapariga que joga comigo. 

Sorriamos e comiamos mais um quadradinho, estávamos quites.

A noite falávamos ao telefone, trocávamos mensagens no whatssap e gostavamos das fotos um do outro no instagram. O dela era cheio de fotos de unhas, cabelos, bebidas, fotos de conversas, sapatos e partes do corpo. Sim! Ela gostava de tirar fotos semi nua.

―  Tu não precisas exibir o corpo!

―  Mas eles precisam disso, Nando. Eles só amam o meu corpo. 

''Então esquece eles.'' Essa foi uma das coisas que eu nunca disse.

Ah, ela era muito bonita mas já sofreu tanto! Sofreu sem necessidade, sabes? 
Sofreu pelo Pedro que gostava da Joana, sofreu pelo Renato que contou detalhes íntimos deles para o bairro todo, sofreu pelo Ricardo que não assumia o namoro, e até já sofreu pelo Rui que a espancava.

Ela gostava tanto de sofrer que achava estranho quando alguém gostasse dela de verdade, e não falo só de mim. O Juninho da Rua 27, fazia tudo Por ela, mandava flores e cartões bonitos, ele ainda teve algumas vantagens, conseguiu uns beijos dela e nada mais do que isso. Quando eu perguntei o motivo de ela não namorar com ele, respondeu:

―  Ah, o Juninho é bom demais para ser verdade.

'' Por que é que tens a mania de achar que mereces pouco? Por que é que subestimas quem gosta de ti?''  Essa foi mais uma das coisas que eu nunca disse.

Ela era uma boa moça mas preferia fingir ser má. Já andou com muitos moços aqui do bairro e tinha fama de... Aquela palavra feia... Tu sabes! 

Mas eu não ligava para o que diziam, eu sabia que as necessidades dela não eram físicas.
Eu não ligava para a reputação. Eu gostava dela, mas eu era apenas um expert em tratamento da informação por meios automáticos e ela era uma moça alta e magra de cabelos crespos cor de mel que gostava de tirar fotos semi nua.

Da última vez que ela veio aqui em casa, comemos chocolates, vimos um filme e jogamos
''Call of Duty'', de repente ela parou o jogo, olhou para mim e sorriu:

―  Tu és o irmão que eu nunca tive Nando.
―  Tu és uma boa amiga.
―  Prometes nunca me abandonar? 
―  Prometo, Clarisse. Prometo!

Sim o nome dela era Clarisse, e não Clarissa ou Clarice. O nome dela era Clarisse com dois ''S''.
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